Tecnologia e opinião

Era final dos anos 80; 87 ou coisa do gênero. Não lembro direito. Não tínhamos computador em casa. Aliás, quase ninguém tinha. Faltavam uns bons 10 anos pra que isso começasse a se tornar algo popular. Na esquina de casa tinha uma empresa de treinamento de informática que por coincidência era de um dos nossos vizinhos. Fiz meus cursos de introdução à informática lá: DOS, Lotus 1-2-3, Wordstar, o crème de la crème daquele tempo! Os cursos eram à noite e eu, obviamente, era o único pirralho ali. Por sinal, o mais novo depois de mim devia estar na faixa dos seus 40. Meus amigos todos estavam mais interessados em ver “TV Pirata”, jogar bola ou ficar simplesmente correndo na rua. Mas pensa que eu me importava? Eu adorava aquilo! Teclar aquele monte de comando em uma tela preta ou verde e ver as coisas acontecendo? Não tinha igual! Mouse? Pra ser bem honesto eu não sabia nem falar inglês na época, quanto mais ter visto um periférico desses. Disquete? Era aqueles 5 1/4 que cada um custava o mesmo que uma semana de lanche na cantina! Por sinal, ainda tenho ele guardado nas minhas coisas. Ou deve ser da minha esposa. Nerds saudosos guardam essas coisas (sim! Eu também tenho um chaveiro de 8088 em algum lugar!)

Quem me conhece, sabe: sou programador por teimosia, não por vocação. Quando eu tinha meus 12, 13 anos enchi a paciência da minha mãe por tanto tempo pra que ela me deixasse fazer um curso de programação que devo ter feito um calo no ouvido dela. “Pra que isso?”, ela me perguntava incrédula e tentando me desencorajar. “Eu vou poder fazer jogos de computador, mãe!”, argumentava aquele moleque cheio de energia e empolgação mas sem nenhum juízo na cabeça. Era o efeito daqueles cursos de “Introdução à Microinformática”. Finalmente a teimosia foi maior e eu acabei conseguindo. Lá ía eu pra meu curso de “Programação I”, aprender conceitos de lógica com um professor que só fazia referências a culinária. Tenho que confessar. Aquele curso de xBase não me ensinou muita coisa; não sou nenhum prodígio e sinceramente foi um grande ganho eu não cair dormindo durante (todas) as aulas. Havia momentos em que eu boiava mais que esgoto a céu aberto, mas nada se comparava àquela moça que sentava do meu lado que em todas as aulas reclamava que o computador não estava funcionando e que havia perdido todo seu trabalho mas nunca se lembrava de ligar a máquina e colocar o disquete no drive. Acabei largando o curso pelo caminho. Nunca ouvi minha mãe falando isso, mas tenho certeza que a vontade de soltar um “eu te disse” foi abafada por pena daquele moleque teimoso.

Acho que só mais de uma década depois fui finalmente capaz de fazer meu primeiro jogo. Era meu primeiro ano de bacharelado em informática e era o objetivo do curso de Programação 1. Depois de dias e dias finalmente consegue fazer minha versão de Tetris, que obviamente era de bugs e travava por nenhuma razão aparente. Via colegas meus fazendo coisas fantásticas que faziam eu me questionar se realmente eu estaria no lugar certo. Talvez eu devesse ter feito ciências sociais ou biblioteconomia, onde ninguém precisava ter nascido pensando em bits em bytes. Essa sensação me acompanhou por todo o tempo em que eu permaneci no curso: quatro semestres. Abandonei tudo e dediquei minha vida trabalhando em um provedor de Internet. SIM, a “super-rede de computadores”, que naquele tempo nem era tudo isso e tínhamos que nos contentar com sofríveis conexões de 14.400bps que ocupavam a linha telefônica de casa e faziam a fatura disparar. Mas no provedor tudo era diferente. Lembro do dia que nosso link passou para 1Mpbs. Era insano! A página da CNN abria quase instantaneamente e finalmente parecia viável assistir vídeos, mas só quando se estava no trabalho.

Mas minha teimosia por programação ainda estava lá. Depois de alguns meses no suporte técnico acabei passando pra fazer websites e logo depois as primeiras aplicações; tudo de maneira artesanal, desbravando Perl, ASP e o tenebroso PHP 2.0. Era o preço de querer ser pioneiro. O bate-papo do UOL e o IRC deram lugar ao ICQ e os servidores de News foram abandonados por vários fóruns no Geocities. E nós, parecia que estávamos criando a Internet. Éramos todos inocentes e teimosos. Veio o MSN aos poucos abandonávamos o “oh! oh!” da florzinha piscando no canto do Windows. Quake em rede logo daria lugar ao CS e LAN Houses se tornariam Cyber Cafés depois de serem abandonadas por conexões mais em conta e dezenas jogos online e MMORPG. Juro que tentei surfar essa onda de novidades e atualizações mas levei um caldo em algum momento e esmagado na arrebentação. A gente culpa a idade, a falta de tempo e dinheiro, mas a verdade é que tudo passa muito rápido e a gente é obrigado a escolher um caminho porque não vai conseguir abraçar o mundo. A vida, vejam só, me pregou uma peça. Depois de vários anos trabalhando com sistemas de bancos de dados e instituições financeiras, me trouxe a oportunidade de trabalhar em uma das maiores empresas de jogos do mundo e mais de 20 anos depois lá estava eu alimentando o vício de gente em todo o planeta com o grande bônus de estar fazendo tudo isso morando do outro lado do continente e conhecendo a vida canadense. Foram 5 ótimos anos e vários títulos conhecidos. É impossível fazer um desses sozinho, são muito detalhes e mais detalhes que só uma equipe de dezenas de pessoas é capaz de dar conta. Mesmo assim, não deixo de sentir uma ponta de orgulho quando alguém me olha com um ponta de encanto ao saber que fui responsável por aquele título que todo mundo na escola está jogando. A realidade, porém, é outra. O romantismo por trás de fazer um jogo se foi depois de conhecer o ritmo e a dedicação envolvida para manter o mercado rentável. Aquele garoto, que há 20 e poucos anos atrás pediu pra mãe a chance de fazer um curso de programação, finalmente fechou aquele capítulo da vida, mas o livro continua.

A Internet, vejam só, mudou. E como mudou! O Shockwave, que prometia ser a grande revolução, desapareceu. Flash, quase esquecido. Mesmo o HTML 3.0 que era promessa da Web 2.0 hoje já é tão banal quanto bala Juquinha. Nem de HTML se fala tanto mais. Só se falar de conversão: e-mail virando mensagem de texto, fóruns de discussão virando mensagens instantâneas, a TV indo pra Internet, a Internet ditando o que vai ser a TV. Aliás, isso se resolvermos levantar a cabeça e deixar de olhar pro celular pra ver o que está passando.

Nunca foi tão fácil compartilhar nossos pensamentos, nossas opiniões, nossos gostos e desgostos. Demonstrar o ódio e repúdio por pessoas ou movimentos sociais é tão simples e banal quanto xingar o juiz quando você sente que seu time está sendo roubado. O que deveria ser palco de grandes avanços é cenário de intolerância e hedonismo. Discordar de uma opinião (me desculpem os ateus e agnósticos mas acreditem, é apenas figura de linguagem) é pecado. Somos obrigados a andar em ovos e medir nossas palavras e ações porque uma frase mal colocada pode ser o assassinato do arquiduque Francisco Fernando e desencadear uma batalha mortal medida em 150 caracteres ou likes. Nelson Rodrigues já dizia que toda unanimidade é burra mas não tem nada de errado se você quiser discordar disto. Tirando aqueles que vivem em ditaduras, ninguém é obrigado a concordar com a opinião alheia. Porém, deveríamos ter, no mínimo, a cortesia e o bom senso de respeitar e escutar o que o outro lado tem a dizer. Senão por respeito, mas ao menos buscando aprender o outro lado da história. Já diz o ditado: ninguém estuda tanto a bíblia quanto o diabo.

O que nos aproximou tanto hoje também é o que nos afasta. Como espécie, não deixo de acreditar que somos dotados da capacidade de raciocinar e encontrar soluções para quaisquer problemas. Talvez a verdadeira questão seja exatamente essa: querer. Quem

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