Você não gosta de rendez-vous? Pense novamente

Uma coisa que as pessoas acham incômoda quando chegam em Quebec é o fato de marcar rendez-vous pra tudo, desde abrir uma conta no banco chegando até ao ponto de ir no cabeleireiro. Pois bem, se vocês acham isso ruim, pensem novamente. As coisas podem parecer ( e as vezes até serem burocráticas mesmo ) mas com certeza não chegam aos pés de ter que depender do serviço brasileiro. Vou relatar um breve episódio ocorrido conosco quando precisamos dos serviços do consulado em Montreal.

Antes de sair do Brasil tivemos a idéia de deixar procurações para nossas mães evitando assim o incômodo de ter que se envolver com qualquer coisa relacionada ao Brasil. Como estávamos na correria pra viajar pra cá acabamos otimizando o tempo da maneira que dava. Assim, fiz minha procuração em um cartório diferente do da minha mulher. Era pra ambas terem o mesmo conteúdo, afinal, pedimos a mesma coisa, mas por alguma razão ela ficaram diferentes. Infelizmente só ficamos sabendo disso quando precisamos utilizá-las. Minha mãe precisava de uma procuração autorizando minha mulher a vender alguma coisa. Era pra ser simples, bastava que minha sogra fosse no cartório e pedisse que redigissem a tal da procuração. Acabou que não deu certo porque a procuração que deixamos pra ela não dava direitos de assinar uma procuração praqueles fins. Resultado: tivemos que usar o consulado.

Bom, seguimos os procedimentos descritos no site do Consulado de Montréal para solicitação de procuração e entramos em contato com eles para informar que havia uma certa urgência e se existiria a possibilidade de concluir a declaração antes dos 5 dias previstos pelo site. Fomos então informados que sim mas que precisavam que enviassemos os documentos scaneados. Fizemos isso e nos enviaram uma data para que estivéssemos lá. Seria uma sexta-feira e teríamos que estar lá as 10h da manhã.

No tal dia, estávamos lá. Nunca estivéramos antes no consulado, então tratamos de chegar cedo. Ao chegar lá, nos deparamos com uma sala com cadeiras, um balcão envidraçado e uma máquina de senhas! Depois de quase 2 anos aqui, dar de cara com aquilo era no mínimo… inusitado. Bom, pegamos a próxima senha e esperamos. Não lembro o número agora, mas era algo como se tivéssemos pego o 22 e ainda estavam atendendo o 8 e, a julgar pela demora de chamar o próximo número, aquilo ia demorar muito ainda. Mas, como macaco velho que sou, resolvi dar uma de curioso e fui conversar com o funcionário atrás do vidro.

– Oi. A gente entrou em contato com vocês pra fazer uma procuração. Falamos com <nome omitido pra proteger a criatura> e fomos informados que bastava vir aqui hoje e pegá-la. Estamos com a senha 22.

– Nããããããããão. A senha é só pra quem está pedindo visto. Bastava você vir aqui e falar com a gente.

Ao olhar ao redor, não vi placa ou papel ou bilhete ou qualquer outra coisa dizendo que a senha era só pra vistos, mas tudo bem. Foi a primeira vez que me senti idiota no dia.

– Ahm, ok então. E a procuração tá pronta ?

– Quando vocês vieram aqui ?

– ahm, a gente tá vindo hoje. Conversamos com a <fulana> por e-mail e ela nos informou que bastava que enviássemos os documentos por e-mail e que trouxéssemos os originais aqui hoje, assinar o livro e ponto final.

– Nãããããããããããããão. A gente não faz isso, não. A gente vai fazer isso agora e daqui a 5 dias a gente entrega pra vocês.

Depois do sangue subir à cabeça e quase destruir meus vasos, de me sentir idiota pela segunda vez no dia e quase ter um AVC, resolvi perguntar com moderação ao rapazinho.

– Viu, tem como a gente falar com a<fulana>?

– Só um pouco. Eu vou ver se ela pode atender vocês.

Eis que chega a <fulana> e nos diz que deve ter acontecido um mal-entendido e que a nossa procuração já estava pronta, bastando que o “Ministro” a assinasse. Pediu que esperássemos um pouco e que já voltaria a falar conosco.

Pausa pra reflexão: Alguém com conhecimento consular ou jurídico ou qualquer coisa parecida poderia me dizer que o cônsul tem o título de ministro ou algo parecido pra que a <fulana> o chamasse assim ?

Apesar da procuração já “estar pronta”, só depois de uma hora esperando ela volta a nos chamar na janela com a folha da procuração impressa e pede que validássemos o que estava escrito. Texto revisado, estávamos satisfeitos pois ainda nem era meio-dia e voltaríamos para Québec a tempo de descansar.  Ledo engano. Ela nos informa que o “ministro” saíra para almoçar e que estaria de volta somente as 15h30 mas que seria melhor que chegássemos as 16h pois as vezes ele demorava no almoço (QUATRO HORAS DE ALMOÇO!?).

Sem muita opção e com cara de idiota pela terceira fez no dia, saímos pra almoçar ali perto. Mesmo que quiséssemos não tinha como ficar no consulado já que este fechava durante o almoço.

Quatro horas depois, chegamos pontualmente as 16h e fomos direto no guichê. Pedimos pela <fulana>, que chega com cara de desesperada pra dizer que ela já entregaria a procuração ao “ministro” pois agora ele estava ocupado. Cinco horas da tarde, depois de ter o saco quase consumido por um dia perdido, ainda dava tempo de ser feito de idiota uma vez pelo funcionário do consulado. Ao perguntar se demoraria muito que a <fulana> voltasse com nossa procuração assinada, o rapazinho se volta pra mim e disse:

– Olha, se eu fosse você ficava bem tranqüilo porque a <fulana> só está fazendo isso pra vocês porque ela é tua amiga.

Agora sim, com o sangue causando múltiplos rompimentos de capilares , eu querendo quebrar aquelo vidro e esmagar a cabeça do espertalhão do outro lado vidro só pude me distanciar e ir respirar bem longe dali. Só não acabei xingando ninguém porque momentos depois chega a <fulana> com a procuração assinada pelo cônsul como precisávamos.

Moral da história. O que eu posso dizer sobre rendez-vous. Eles são um mal necessário. Pelo menos, você pode se programar pra fazer as coisas, não precisa ficar como um palhaço a mercê dos outros, principalmente do consulado brasileiro.

One thought on “Você não gosta de rendez-vous? Pense novamente

  1. O mais triste é que não tem como um brasileiro ler isso sem se identificar, por ter passado por muita coisa semelhante! 🙁 E pelo visto em todos os consulados brasileiros espalhados pelo mundo é uma bagunça assim.

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