Japão – Parte I

Meu vôo partia de Québec dia 11 de maio, num vôo da Jazz partindo as 9:30 da manhã em direção a Toronto. Consegui uma carona com um amigo até o aeroporto já que o carro ficaria com a minha esposa. Resolvi chegar cedo, mas como é Québec, segunda-feira pela manhã, o aeroporto estava entregue às moscas. Então, chegar as 8:30 era mais que suficiente.

Feito o check-in, fui barrado já na inspeção. A razão foi que eu resolvi ser mais esperto que os outros ursos. Sempre sofro com ar condicionado, principalmente nessas viagens compridas. Com medo de ser preso no aeroporto de Narita por causa do nariz escorrendo ou com acesso de espirros causados pelo ar, levei comigo um pote de Vicki, daqueles com creme, que sempre ajuda a passar minhas crises. Detalhe: o Vicki é creme, então É CLARO que parou no raio-x. E pra explicar pro indiano da inspeção que focinho de porco não é tomada ? Mesmo assim, a mula aqui resolveu ficar com o potinho. Isso ainda ia me causar mais problemas depois.

Já na sala de espera, peguei meu DSi e fui jogar um pouco. Tinha copiado vários eBooks e filmes pra ver no avião (inclusive StarTrek e Wolverine, que não tinha tido a oportunidade de ver no cinema), mas o bom mesmo foi poder usar o wi-fi do Lesage que é gratuito e poder mandar uns e-mails de última hora.

Como meu pai também iria para lá para a cerimônia do meu avô, havia combinado com ele de nos encontrarmos em Toronto, assim dava pra pegar o mesmo vôo. Na última hora ele deu prá trás e disse que resolvera ir pela Europa, pois tinha ouvido falar que vôos vindo da América do Norte estavam sofrendo muito mais com a inspeção das autoridades de saúde japonesas.  Eu esperava com essa pelo menos me livrar pelo menos do impacto da imigração, mas me dei mal. O destino queria que eu fosse sozinho mesmo.

Embarque pra Toronto, vôo correndo super bem, naqueles micro CRJ-705 da Canadaair com aqueles 65 lugares. Eu rezando pro vôo ir vazio pra poder esticar as pernas… não deu muito certo. Tava cheio mesmo. O jeito era jogar o que tivesse no DS e aproveitar os 90 minutos que tinha pela frente.

O teco-teco da Jazz e eu...

O teco-teco da Jazz e eu...

Já em Toronto, o negócio era esperar. Chegando pontualmente as 11h, eu ainda tinha 2h pela frente até o embarque. Era pouco, então o lance era pegar alguma coisa pra comer porque só ia ter lanchinho até o jantar. Comi um hamburger que espero nunca mais ter que provar. Se fosse no Brasil eu diria que tinha sido feito no Montesquieu, mas isso seria desrespeitar o Álvaro e o seu Zé. O troço era ruim mesmo. Era um pão ensopado no óleo, delícia pra entupir as artérias.

Embarque pontualmente as 13h30, todo mundo entrando, eu vou pro meu lugar e dou a “sorte” de sentar no lado esquerdo da aeronave, no banco do meio, entre dois outros passageiros. Do meu lado esquerdo um cara gordo, chinês, com bonezinho do Yankees. Do meu lado direito, um outro cara, brinco, baton, rímel, oriental, tailandês, viado, claro… Pra minha fantástica sorte. Mas pra minha grande felicidade tinha algo de bom na minha frente, BEM na minha frente: a telinha com a programação da AirCanada. Era aquilo que ia me fazer esquecer a falta de espaço para as minhas pernas e as 11 horas de viagem que me esperavam.

Eu te amo, meu 777 300!!!

Eu te amo, meu 777 300!!!

A programação prometia:

  • Pink Panther 2
  • O Curioso Caso de Benjamin Horton
  • O Dia que a Terra Parou
  • As Crônicas de Narnia : O Príncipe Caspian
  • Yes Man
  • Bride Wars
  • Bolt
  • Madagascar 2
  • Inkheart
  • Revolutionary Road

e mais uma outra seleção de filmes que eu não lembro. Isso sem contar que ainda tinha TrueBlood (que eu não tinha conseguido tempo de começar a assistir), 30 Rock (que eu acho muito massa também) e uma outra dúzia de programas do Discovery Channel. A viagem estava garantida. Além de tudo isso, ainda descobri que os petiscos do avião eram todos japoneses, do jantar, ao lanche e até o café da manhã. Melhor que isso só viajando de primeira classe, mas ainda não foi dessa vez.

Como meu objetivo era tentar me adaptar o mais rápido possível ao fuso japonês (13 horas pra frente) resolvi ficar acordado o máximo possível, assim chegaria pronto pra desmaiar de sono. E foi o que eu fiz. Assisti a todos os filmes possível, mesmo achando alguns extremamente chatos, mas consegui. Dormi cerca de umas 2 horas e fui dar uma volta no avião pra poder esticar as pernas. Fora isso, meu tempo foi dedicado a deixar minha bunda quadrada na frente daquele visorzinho. No geral não havia o que reclamar, foi uma viagem tranquila.

Era 15h do dia 13/05, eu havia perdido o dia 12 ao passar a linha de divisão do fuso. Era hora da inspeção sanitária. Dentro do vôo os comissários de bordo já distribuíam máscaras e formulários pra preencher para a alfândega. Minha dúvida era, assim que aterrizássemos viria aquela cena de filme de ataque biológico, com roupas de proteção e câmeras infravermelho ou só seríamos interrogados aleatoriamente ?

Era assim que os caras passavam na frente da gente.

Era assim que os caras passavam na frente da gente.

Enquanto o batalhão passava inspecionando um a um, observei um detalhe que me fazia ter certeza que eu já não estava no Kansas: a educação dos inspetores. Acho que nem se eu tivesse um escravo particular, tratado na corrente a pão e água, ele seria tão educado comigo. Os inspetores praticamente pediram perdão por me abordar enquanto me entregavam um outro papel informando quem eu deveria contactar caso apresentasse qualquer sinal como febre, dor de cabeça, dores na garganta ou no resto do corpo. Ah sim. E outro detalhe muito curioso. Apesar dos 15 anos sem falar japonês, notei que a tecla SAP funciona maravilhosamente bem. Consegui entender tudo que os fiscais falavam comigo e ainda consegui responder.

Finalmente depois de uma hora e meia de espera até que a equipe terminasse toda a investigação da aeronave, era hora de desembarcar e de se virar sozinho. Mas, um detalhe de última hora me impedia de passar mais rápido pela alfândega: o jantar tinha feito seu trajeto interno como esperado e queria sair. Eu só via um corredor gigantesco na minha frente uma esteira rolante que acompanhava a curvatura da terra.

E o pior é que isso está no site do aeroporto...

E o pior é que isso está no site do aeroporto...

Depois de percorrer os quilômetros da esteira, achei uma flecha conhecida que indicava o caminho do relaxamento, mas como tudo nessa viagem, levei outro susto quando abri a porta da casinha: o vaso não era como eu esperava. Era quase a cadeira de comando de uma espaçonave. Era o tal do Washlet (ou Uoshuretto, como eles chamam), desconhecidos pra mim quando estive 15 anos atrás lá mas hoje existentes em qualquer lugar onde a gente vai no Japão e até em alguns lugares nos Estados Unidos. Esse modelo tinha uns 6 botões do lado, além de ser almofadado, local para colocar as malas e pertences e mão além de ficar aquecido a uma temperatura agradável. Ou seja, era o paraíso. Depois de relaxar, porém, fui descobrir as funções dos botões. Tinha o jatinho de água, o desodorisador de ambientes e o massageador de nádegas… Algo… sei lá quem pensou nisso…

Mas eu tinha que levantar, senão já iam dar minha falta na imigração. Peguei minhas coisas e quando chego pra lavar as mãos outros susto: não tinha dispositivo de pegar sabão, só as torneiras. Olho pra lá, olho prá cá… nada. “Vai só na água mesmo, depois eu passo a mão nos desinfetantes que tem pelo caminho”, mas não foi preciso. Ao colocar a mão embaixo da torneira eis que ela solta um esguicho de sabão como se fosse um borrifador e logo em seguida veio a água. Troço bacana e cheiroso. Olho pro lado tem o secador de mãos na forma de uma pequena pia. Aliás, nada mais lógico. Já reparou como fica molhado o chão dos banheiros onde tem esse secador ? Pois é. Com esse tal de Jet Towel eles resolveram essa história, sem contar que vem vento de todos os lados pra secar a mão, não só de cima.

Me arrependo muito de não ter trazido um...

Me arrependo muito de não ter trazido um...

O secador de mãos japonês

O secador de mãos japonês

Terminado meu choque cultural pós-prandial, saí correndo pra alfândega. Olhei pro lado, a fila imensa e eu já triste, só de imaginar que ainda ia ter que pegar o trem pra chegar na casa do tio e ia ser uma longa viagem. Mas, eis que a alegria volta à minha vida quando li a placa destinada a japoneses e a fila com umas 10 pessoas andando rapidamente. Peguei meu passaporte japonês, passei pela oficial de imigração, confirmo meu endereço e telefone e vou pegar minhas malas. Jogo rápido e cerca de 15 minutos depois estou do lado de fora, procurando onde pegar o trem. Aliás, ir pro Japão e não andar de trem é como ir pro Hawaii e não ir pra praia. Considerado o mais completo e o mais COMPLEXO sistema de trens do mundo, é realmente fascinante andar de trem por lá, inclusive se refletindo no website da Japan Railways (JR), pronto pra pessoas que moram no Japão e pra gente que não manja nada da língua tambem. Por sinal, essa parte do complexo ainda ia me dar um show quando tivesse chegando em casa.

Demorou mais pra eu me localizar no aeroporto do que pagar a passagem e o trem. Apesar de haver diversas opções pra ir de trem de Narita até Tokyo (o aeroporto fica na cidade de Chiba, não em Tokyo), o Narita Express é com certeza a opção mais rápida, a “apenas” 60 minutos da capital, num preço acessível de 2,900 yens, mas tinha a linha “green”, uma espécie de carro executivo, com ar condicionado e banco reclinável que minhas costas me obrigaram a pegar, pagando praticamente o dobro desse valor, mas naquela altura… DANE-SE. Paguei e fui.

O mapa macro da linha férrea até o aeroporto

O mapa macro da linha férrea até o aeroporto

No caminho já dava pra reconhecer boa parte da paisagem, com aqueles prédios enormes pelo caminho, casas espremidas, fio elétricos, empresas, fábricas, plantações de arroz, estacionamentos, centros de entretenimento, tudo muito diferente, tudo muito… Japão. Várias vezes já pediram pra eu explicar como é diferente, mas eu simplesmente não consigo. É diferente. É como quando você tem amigos que são gêmeos e te perguntam como você sabe quem é quem. Você sabe que eles são diferentes e até consegue pensar em alguns detalhes, mas é muito subjetivo.

Mesmo querendo ficar acordado pra ver tudo, o corpo foi esmoecendo com o cansaçoe eu me rendi a um cochilo. 50 minutos depois, e bem a tempo, eu acordo próximo na estação de Shinagawa, onde eu teria que descer do Narita Express e pegar a linha local pra chegar em Ömori, onde morava meu tio. Era quase 6 horas da tarde e eu carregando minha mala no trem, desembarcando no caos da estação de Shinagawa, perdido, meio sem noção de pra onde eu deveria ir. Fui seguindo as flechas até achar um mapa com as estações. Eu achei o mapa, mas teria sido melhor se eu não tivesse visto. Uma coisa me veio à lembrança: era uma linha azul. Procurei e procurei até que finalmente achei perdido por ali 大森 (tente achar você também. Eu saí de 品川). Só não sabia se eu tinha que pagar outro ticket.

No Japão a passagem de trem funciona da seguinte forma. Você paga até o trecho node deseja ir. Tem um valor específico. Se você mudar de idéia no caminho e quiser trocar de linha, precisa saber se o valor que pagou é suficiente pra chegar até lá. Se não for, você precisa trocar seu ticket por outro de valor correspondente. Isso é importante porque, além do controle da entrada, as estações tem controle de saída. Se sua passagem não tiver valor suficiente pra sair, danou-se, meu velho. Vá trocá-la, senão não sai da estação.

Pra minha alegria o ticket do Narita Express tinha passagem livre até lá e outras localidades, era só o que eu precisava saber. Procurei a linha, peguei o trem e cheguei na estação. Falta um único detalhe: chegar na casa do tio. Já era 19h, eu estava moído e estava escuro. Optei pelo mais fácil e peguei um taxi. Passei o endereço pro motorista (o motorista é motorista, não é carregador, então ponha a mala sozinho no porta-mala) , e em 15 minutos estávamos na casa do tio, idêntica como a 15 anos atrás, com exceção de que já não estavam mais lá meus avós.

Parece chinês pra você? Parece turco pra mim!

Parece chinês pra você? Parece turco pra mim!

Desde bebê, e mesmo tendo mãe brasileira, minha educação sempre foi no sentido de ser japonês, algumas vezes se sobrepondo até a muitos valores brasileiros. O resultado disso culminou com a minha saída do Brasil para ir morar no Canadá pois, com exceção dos meus amigos, eu me sentia um estranho naquele país. E lá não. Eu realmente entendia como as coisas funcionavam, era onde estava tudo que eu tinha aprendido a ser, lá, eu estava em casa. Estando naquela casa, com aquelas pessoas, naquele lugar, tudo era diferente, tudo tinha um tom nostálgico. E mesmo com o cansaço e a fome, eu não queria dormir, só queria curtir cada momento. Mas isso foi só o começo. Ainda tinha muita coisa naquela semana que vinha pela frente.

Detalhes de última hora:

Justiça seja feita. O chinês que viajou comigo do meu lado (não o viado tailandês) se chamava John e morava nos Estados Unidos. Muito simpático, ele tem (claro) três restaurante há mais de 15 anos na região de Chicago. Nasceu em Taipei mas cresceu em Hiroshima, onde morou por certa de 10 anos antes de ir para os Estados Unidos e se casar. Por causa do tempo que morou no Japão ele fala japonês e se vira bem. Me deixou o telefone e o endereço dos restaurantes pra eu ir visitar, mas só Deus sabe onde eu meti esse papel.

3 thoughts on “Japão – Parte I

  1. Show de bola o relato!

    Agora, se eu visse esse mapa das linhas eu entraria em pânico hehe!

    Estou me lembrando de quando eu conversava com uma chinesa, e quando ela não sabia a palavra em inglês, ela escrevia dizendo “em chinês é…” e completava com uma palavra que me parecia um monte de rabiscos! hehe!

  2. Terezinha de Jesus says:

    Rapaz, você devia sair pelo mundo e … contar tudo para todos ! Do jeitinho que fez acima. Muito bom !

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