Desabafo

Pois é, já faz algumas semanas que não escrevo nada por aqui. A razão: passamos um grande aperto há algumas semanas quando recebi a notícia que meu pai havia sido seqüestrado. Não importa o que tenha acontecido no passado, o cara é meu pai e me preocupo com ele.

Passado o pior acabei tomando algumas decisões: excluí meu perfil do Orkut (que já pensava em fazer há muitos meses) e pedi a meus familiares e amigos que apagassem qualquer referência a fotos ou vídeos de qualquer membro da minha família. Podem me chamar de paranóico, mas acho que só quem já passou por situações parecidas sabe o que passa pela minha cabeça hoje. Antes de voltar a escrever, agora já um pouco mais tranqüilo após tudo que aconteceu, gostaria de deixar um desabafo àqueles que leem meu blog e que me conhecem pessoal ou virtualmente.

Por quê imigrar?

Eu e minha esposa somos casados há quase 7 anos. Temos uma vida estável, com amigos fantásticos e cercados de pessoas de realmente boa índole. Moramos em uma cidade que muitos consideram de boa qualidade para viver, em uma boa região, mas que obviamente não é nenhum paraíso. Não somos ricos, longe disso! Temos nossas dívidas e nossas preocupações diárias. Tudo o que conseguimos até hoje é reflexo do nosso esforço e daqueles que vieram antes de nós, que sempre buscaram nos dar uma ótima educação e nos fazer pessoas de bem. Não somos arrogantes nem prepotentes, sempre buscando ajudar àqueles que nos cercam e que realmente precisam de ajuda. Não somos perfeitos para julgar quem merece os céus, mas somos inteligentes o suficiente para conseguir discernir quem quer nos passar para trás e nos fazer de idiotas. Felizmente não somos perfeitos, passamos por essas vidas para aprender e ensinar, seja com o exemplo alheio ou com nossas próprias mancadas. Enfim, somos pessoas normais, que lutam para viver em paz e felicidade com os outros.

Então, será que deixar o país onde nascemos, onde criamos e construímos tudo o que temos hoje seria a solução para nossos problemas? Essa é a pergunta que algumas pessoas nos fazem abertamente e outras gostariam de nos perguntar em um momento ou outro. Vou tentar responder o porquê.

Deslocado

Pra começar a falar sobre sentir-se deslocado tenho que contar um episódio que presenciei quando ainda era muito jovem. Meu pai saíra de cara para ir ao mercado. Pelo caminho ele acabou se metendo em uma discussão de trânsito, nada anormal para nosso cotidiano. Quer ele tenha tido qualquer tipo de culpa ou não, o que realmente me marcou foi ele contando pra minha mãe depois que voltara pra casa, como havia sido humilhado por alguém no trânsito dizendo-lhe coisas como “volta pro teu país, japonês” e coisas do gênero. Humilhações a parte, ouví-lo chorando por trás da porta e deprimido com isso foi realmente o que ficou marcado. Aquele episódio realmente nunca saiu da minha memória e sempre que meu pai me dava alguma lição aquela cena sempre vinha à tona.

Quisera eu dizer que apenas esse fato fosse o responsável isolado por meu motivo de sair do país. Pelo contrário, depois desse caso esses episódios só se repetiram cada vez mais no decorrer dos anos, alguns no mesmo nível preconceituoso outros nem tanto, mas sempre presentes. A falta de caráter e a irresponsabilidade das pessoas ao ser coniventes com tudo que somos educados para crer que seja errado também me incomoda; a incapacidade alheia em saber discernir os problemas é impressionante. Ver essas coisas acontecendo constantemente acaba enchendo um balde de insatisfações que as vezes fazemos questão de esvaziá-lo e outras vezes apenas fazemos de conta que não estão lá.

Houve episódios engraçados também. Por ser mestiço cresci sendo um tipo de bola de ping-pong: enquanto estava com meus amigos “brasileiros” sempre era tratado como “o japonês” e vice-versa quando estava no meio da “colônia”. É interessante como aprendemos a conviver com isso, mesmo sabendo que bem no fundo somos como óleo e água existindo ao mesmo tempo. Ser “japonês” nos persegue a vida inteira, consciente e inconscientemente pelo modo como as pessoas no tratam, mesmo que você queira ser apenas você.

Educação

Ah sim. Tenho que dar parte da culpa aos meus pais também. Claro, afinal de contas eles são as figuras principais da minha educação, quem realmente me fez o homem que sou hoje, que me transformaram numa pessoa honesta e correta, que sente-se indignada com a injustiça e com o fato das pessoas acharem natural fazer os outros de trouxas para se dar bem na vida.

Educação, aliás, é o principal fator pelo qual me sinto deslocado. Meu pai é japonês, vindo do seu país quando tinha 18 anos, sozinho, para construir sua própria vida aqui. Não posso dizer que ele é um exemplo de ser humano mas sei que ele e minha mãe fizeram o possível para fazer de mim uma pessoa correta. De fato, mesmo sendo brasileira e não tendo nenhuma ascendência oriental, minha mãe sempre se identificou com a cultura do país do meu pai, mesmo antes de conhecê-lo. Responsabilidade e honra sempre foram constantes da minha criação. Hoje, anos depois de ter deixado a casa dos meus pais e tendo eu mesmo me tornado pai, vejo o quanto esses valores são parte de mim e em como me enxergo como pessoa. Mais do que alguém que é parte de algo eu me sinto parte essencial de tudo que faço parte, seja uma grupo, uma equipe, uma comunidade ou mesmo uma nação. Desde muito pequeno carrego a responsabilidade do meu próprio nome e das minhas ações para com os que me cercam.

Cotidiano

Não preciso ficar enumerando as barbaridades que vemos. Basta estar vivo para perceber o que acontece à nossa volta, com atos de violência entre membros da própria família, por vezes culminando em morte ou mutilação, pessoas que já perderam a noção do que é certo ou errado, fazendo justiça com as próprias mãos porque não acreditam mais no sistema à sua volta e que foi criado para protegê-lo. Um professor de pós-graduação certa vez falou que a humanidade está passando por um momento de crise, mas não apenas econômica, social ou ambiental, é uma crise ética. Aos poucos as pessoas perdem suas âncoras na realidade, nada mais é um porto seguro para si mesmas. Nação, Religião, Família, Bens; nada mais parece ter sentido, apenas a busca do prazer e a fuga da realidade. O tal do “vazio” é figura presente em todos.

Minha mãe constuma dizer que “as pessoas precisam de Deus”. Em parte concordo com ela. As pessoas realmente precisam de “um Deus”, algo em que acreditar, se firmar, ter fé, seja lá o que for. Ouvir a voz da razão e buscar sentido, voltar a ser uma sociedade com valores e sentido, onde seja possível identificar-se com algo e não apenas ser parte do ciclo dormir-comer-acordar-trabalhar-trabalhar-trabalhar-dormir.

Existe um grupo de pessoas que é chamado de Pensadores, gente que vive isolada do restante da sociedade geográfica ou socialmente, e que é procurada somente quando o verdadeiro conhecimento é necessário. Na minha opinião qualquer um pode ser um pensador, alguém que estuda profundamente a informação e busca as raízes e a verdade por trás dela. Não estou falando do Gabriel, O Pensador, mas qualquer um. Vejo que a velocidade é nossa maior inimiga. Temos que ser rápidos para sermos mais rápidos, engolir a informação antes que alguém nos engula. Com qualquer “googlada” é possível obter informação (nem semper certa, claro) mas isso não significa que vamos obter o conhecimento, refletir sobre algo e compreender seu significado, estar ciente do que está se passando à volta e como isso nos afeta. O que lemos, vemos ou ouvimos é apenas informação, texto escrito por qualquer pessoa, nada de mais. Então, qual a importância disso tudo? Pra mim e simples. Se não dermos um “CHEGA” para nós antes que esse grito seja realmente audível, caímos num redemoinho cada vez mais violento onde a satisfação é nosso único ponto de referência e a ansiedade é nossa constante. Quer um exemplo? Preste atenção em si mesmo e nas pessoas à sua volta. Sei que vai tomar seu valioso tempo mas vale a pena. Observe quantas possuem “tiques” nervosos como balançar as pernas freneticamente, coçar a cabeça ou respirar ofegante. Não vão ser poucas, pode ter certeza.

É desse ritmo que estou tentando fugir, desligar. Meu filho tem quase 5 anos e vive de uma crise de ansiedade sinistra. Ele não gosta de sair a noite porque tem medo de ladrão (5 anos!!!). Apesar de ter uma maturidade fantástica pra idade dele, chegando a discutir assuntos como valor do dinheiro, saúde e criminalidade não quero que o menino fique exposto a esse tipo de vida por mais tempo. Trabalho em média 220 horas por mês, isso sem contar o tempo que ainda trabalho em outros projetos em casa e atividades corriqueiras como cozinhar, limpar e afins; o tempo que fico com minha família é ridículo e quase sempre estamos (os três) cansados demais para fazer qualquer coisa, reflexo de nossas obrigações.

Liberdade

Se tivesse que resumir as razões que nos levam a ir embora do país eu diria que seria Liberdade. Queremos viver em uma sociedade onde sejamos respeitados por sermos nós mesmo não pelo que possuímos. Onde as pessoas respeitem umas às outras e que tenham a capacidade de trabalhar em prol do bem comum.

De tudo que estudamos sobre a cultura do Québec e do Canadá como um todo, essa terra gelada e distante ainda mantém uma certa inocência e um quê de esperança muito distante do que por aqui. Quando falo em esperança não estou me referindo a campanhas hipócritas falando que “O brasileiro nunca desiste” mas de gente que acredita e que trabalha para ter uma Nação trabalhando unida. Eles possuem defeitos como qualquer outro ser vivo, são humanos. Não sou inocente o suficiente pra imaginar que vou encontrar o Eldorado, e também nenhum Ahab em busca de uma baleia branca. Estou bem preparado para encarar o mundo real, longe de todos os amigos que cultivei durante esses anos e sem meus pais e parentes por perto.

O mais importante de tudo isso é que estamos seguindo nosso caminho. Seja lá onde quer que ele nos leve estaremos juntos e sei que vamos conseguir vencer como fizemos até hoje.

Concluindo

O que escrevi antes é motivo suficiente para sair daqui? Pode não ser para você que lê, mas para mim é. Tem diversos ditados para o que quero dizer: “cada um sabe onde o calo aperta”, “ninguém tem uma cruz maior do que pode carregar”, etc. Eu cheguei no meu limite. Estou desiludido com o país? SIM estou, com os governantes, com seus valores, com as instituições que deveriam estar ao nosso lado, com os serviços de baixa qualidade e os preços absurdos que temos que pagar para ter produtos de 3a e até pior qualidade e principalmente, pela maneira como esse pensamento de “tirar proveito alheio” se espalha como um câncer cada vez mais rápido e profundo por todas as camadas da sociedade, chegando ao ponto em que pais ensinam os filhos a passar os amiguinhos pra tras para que sejam melhores. Sou totalmente a favor da competição, mas já estamos no nível do canibalismo e isso sim acho errado.

Enfim, não acho que é certo ficar dando murro em ponta de faca. Além de machucar bastante você pode perde a mão e pior ainda é tornar-se insensível a essa agressão. Não sou um mártir e tampouco acredito que tornar-se um seja a solução para os problemas. Mudanças não acontecem da noite para o dia mas elas têm de começar em algum lugar, mas também não estou mais querendo encarar os mesmo problemas e dificuldades coo quem luta sozinho e sem ver uma luz no fim do túnel. Todos temos que fazer nossa parte, seja no seu país, na sua cidade, na sua empresa e obviamente na sua casa.

Aqui estamos nós, a poucas semanas de deixar nosso país, pronto para assumir o outro lado do estereótipo do mestiço, sendo tratado agora não como “japonês” ou “gaijin”, mas como imigrante, uma nova faceta da vida que vou ter que aprender a lidar junto com minha família.

Neil Gaiman, famoso escritor da séria da DC Comics Sandman, tem histórias de uma personagem que é a personificação da Morte. Ao contrário da grande parte do que já vimos por aí, a Morte é uma jovem gótica de aproximadamente 16 ou 17 anos, que adora muito a vida e tudo nela existe. Protagonista e às vezes co-adjuvante de diversas histórias, sempre é possível vê-la falando sobre a simplicidade da vida e como deixamos de dar atenção às pequenas coisas que fazem parte do dia-a-dia. Em um passagem clássica de uma de suas histórias ela comenta com um rapaz que pensava em se suicidar que “a vida é simples como um cachorro-quente”, fazendo alusão a como sempre tentamos complicar algo que é simplesmente “pão com salsicha” colocando salada, queijo-ralado, batata-frita e outras tralhas, quase sempre deixando de lado o sabor da coisa em si.

Termino esse breve texto envergonhado por assumir minha fraqueza em não conseguir continuar lutando como outros que vivem aqui, muitos com dificuldades muito maiores que as minhas mas nem por isso dispostos a desistir. Como eu disse, não estou aqui para ser mártir nem profeta. Cada um tem seu caminho e deve seguir o que acha melhor para si. Estou indo embora como meu pai quando saiu do Japão, meu avô quando saiu da Ilha de Marajó, dos que vieram antes dele quando saíram do Rio Grande do Norte, dos que vieram antes deles vindo da Holanda, de Portugal. Como os antepassados da minha esposa que vieram da Polônia e da Rússia. Vamos em busca de uma vida melhor, de novos horizontes levando algo que nunca vão conseguir tirar de nós, a lembrança e os bons momentos que tivemos com todos vocês que podemos chamar de amigos.

Finalmente, aos que pensam em seguir o mesmo caminho que nós, seja ele no Brasil, no Canadá ou em qualquer outro lugar do mundo, deixo alguns conselhos:

  1. Pensem e pensem bastante antes de tomar essa decisão e que NUNCA parem de questionar suas ações ou e a realidade que os cerca. O homem é um ser pensante e questionador, capaz de influenciar e transformar o mundo à sua volta, não um pedaço de pau que deve ser levado pela correnteza.
  2. Escolham e não tenham medo de tomar decisões. A vida é um aprendizado constante e mesmo quando erramos somos agraciados.
  3. Sejam justos, corretos e íntegros mas não sejam inflexíveis. Mesmo o metal mais duro tem um ponto de fusão e pode ser moldado.
  4. Hay que endurecerse, si, pero sin jamas perder la ternura.

3 thoughts on “Desabafo

  1. Leo says:

    Putz Masaru, minha sincera compaixão com seu pai, eu que já passei por isso sei como você e seu pai estao se sentindo, espero que todos vocês possam se recuperar logo, se é que isso é possivel.

    Quanto ao porquê imigrar, acho que você conseguiu deixar bem claro essa nuvem de duvidas sobre o tema, no entanto acho que esta errado quanto ao fato de se sentir envergonhado, já que não é mais possivel somar à pátria amada.

  2. Vélho,

    Muito massa o post, e mais ou menos resume o sentimento (que também é parecido com o meu, apesar de adormecido) de tentar aproveitar a vida e todos os seus aspectos em outro lugar.

    Hoje, por essas bandas, não temos muito como aproveitar a vida… e não digo isso num termo libertino mas sim no que ela proporciona para a gente. A gente sobrevive ao invés de viver, e pode ser que lá possamos fazer isso de uma maneira mais tranqüila.

    Farô!

    P.S.: Bon voyage et bonne chance!!! 😀 Et, garde en lieu par moi, d´ac? 🙂

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