Criando e oprimindo

Pensando como quem vive neste país, não estará na hora de avaliarmos as músicas e as histórias que ensinamos aos nossos filhos? Um e-mail que recebi de alguém que resolveu analisar as músicas que fazem parte do nosso cotidiano infantil e inocente. Achei interessante utilizar um momento proveniente da minha maior fornecedora de spams: minha mãe. Podem acreditar. Mesmo sendo eu, um profissional de informática bem instruído sobre comunicação e etiqueta quanto ao uso da Internet, sou criador de uma spammer. Já falei, mas… fazer o quê. De qualquer forma, entre os “power points” e as correntes que mamãe manda, tem alguns pensamentos que realmente são interessantes. E foi exatamente o que escolhi falar desta vez.

Bom, como todo texto que recebemos por e-mail, nunca dá pra saber exatamente se o autor atribuído foi realmente quem é. Se isso fosse realmente verossímil, vejam por exemplo quantos e quantos “causos” dos mais diferentes estilos e formatos, teriam sido escritos por Arlando Jabor, Alexandre Garcia ou muitos outros famosos comentaristas. Nada contra. Admiro o conteúdos dos textos escritos por esses jornalistas e de muitos outros, mas que a gente não tem como ter certeza dos e-mails que recebemos, ah, isso não temos mesmo.

Mas, continuando. Este e-mail foi especialmente interessante. Já havia pensando em escrever sobre as músicas que ensinamos às nossas crianças há muito tempo, mas realmente nunca havia tido tempo prá fazer isso. Vejo que alguém tomou essa iniciativa antes de mim. Leia só a transcrição de parte da mensagem encaminhada pela doutora:

Eu, um brasileiro morando nos Estados Unidos da América, para ajudar no orçamento, estou fazendo “bico” de babá e estudante. Ao cuidar de uma das meninas de quem eu “teoricamente” tomo conta, uma vez cantei “Boi da cara preta” para ela, antes dela dormir. Ela adorou e essa passou a ser a música que ela sempre pede para eu cantar ao colocá-la para dormir.

Antes de adotarmos o “boi, boi, boi” como canção de ninar, a canção que cantávamos (em Inglês) dizia algo como:

"Boa noite, linda menina, durma bem.
Sonhos doces venham para você,
Sonhos doces por toda noite"

Muito bonitinha a música, não concordam? Bom, eis que um dia sou perguntado sobre o que as palavras em português da música “Boi da cara preta” queriam dizer em Inglês:

"Boi, boi, boi, boi da cara preta,
pega essa menina que tem medo de careta..."

Como eu ia explicar para ela e dizer que, na verdade, a música “boi da cara preta” era uma ameaça, era algo como “dorme logo, cacete , senão o boi vem te comer”? Como explicar que eu estava tentando fazer com que ela dormisse com uma música que incita um bovino de cor negra a pegar uma cândida menina?

Claro que menti para ela, mas comecei a pensar em outras canções infantis, pois não me sentiria bem ameaçando aquela menina com um temível boi toda noite…

Que tal! “nana neném que a cuca vai pegar…”? Caramba… outra ameaça! Agora com um ser ainda mais maligno que um boi preto!

Depois de uma frustrante busca por uma canção infantil do folclore brasileiro que fosse positiva e de uma longa reflexão, eu descobri toda a origem dos problemas do Brasil. O problema do Brasil é que a sua população em geral tem uma auto-estima muito baixa. Isso faz com que os brasileiros se sintam sempre inferiores e ameaçados, passivos o suficiente para aceitar qualquer tipo de extorsão e exploração, seja interna ou externa. Por que isso acontece?

Trauma de infância!

Trauma causado pelas canções da infância. Vou explicar: Nós somos ameaçados, amedrontados e encaramos tragédias desde o berço! Por isso levamos tanta porrada da vida e ficamos quietos. Exemplificarei minha tese:

"Atirei o pau no gato-to-to
Mas o gato-to-to não morreu-reu-reu
Dona Chica-ca-ca admirou-se-se
Do berrô, do berrô que o gato deu
Miaaau!"

Para começar, esse clássico do cancioneiro infantil é uma demonstração clara de falta de respeito aos animais (pobre gato) e crueldade. Por que atirar o pau no gato, essa criatura tão indefesa? E para acentuar a gravidade, ainda relata o sadismo dessa mulher sob a alcunha de “D. Chica”. Uma vergonha!

"Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré de si.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré de si."

Colocar a realidade tão vergonhosa da desigualdade social em versos tão doces!! É impossível não lembrar do seu amiguinho rico da infância com um carrinho cabuloso, de controle remoto, e você brincando com seu carrinho de plástico… Fala sério!!!!

"Vem cá, Bitu! vem cá, Bitu!
Vem cá, meu bem, vem cá!
Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá!
Tenho medo de apanhar."

Quem é o adulto sádico que criou essa rima? No mínimo ele espancava o pobre Bitú…

"Marcha soldado,
cabeça de papel!
Quem não marchar direito,
Vai preso pro quartel."

De novo: ameaça. Ou obedece ou você vai se fu… não é à toa que brasileiro admite tudo de cabeça baixa…

"A canoa virou,
Foi deixar ela virar,
Foi por causa da (nome de pessoa)
Que não soube remar."

Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças brasileiras são ensinadas a dedurar o dedo e condenar um semelhante. Bate nele, mãe!!

"Samba-lelê tá doente,
Tá com a cabeça quebrada.
Samba-lelê precisava
É de umas boas palmadas."

A pessoa, conhecida como Samba-lelê, encontra-se com a saúde debilitada, necessita de cuidados médicos mas, ao invés de compaixão e apoio, a música diz que ela precisa de palmadas! Acho que o Samba-lelê deve ser irmão do Bitú…

"O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou.
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou..."

Como crescer e acreditar no amor e no casamento depois de ouvir essa passagem anos a fio?

"O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada;
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada.

O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar;
O cravo teve um desmaio,
A rosa pôs-se a chorar."

Desgraça, desgraça, desgraça!!! E ainda incita a violência conjugal (releia a primeira estrofe).

(…)

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