| Que tal morar num cybercafe? |
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Você reclama de trabalhar 50, 60 horas por semana? Pelo menos você ainda tem um lugar onde morar. Já pensou morar num cybercafe, dividindo lugar com nerds e outras criaturas parecidas? Takeshi Yamashita não parece um morador de rua. Dos jeans cuidadosamente puídos à camiseta de listras azul marinho, casual mas elegante, ele parece o típico morador de Tóquio, consciente da moda e de sua aparência. Mas Yamashita, 26, está dormindo há um mês na poltrona reclinável de um cibercafé, desde que perdeu seu emprego fixo e seu apartamento. O cibercafé sai mais barato que um hotel, oferece acesso à internet e um acervo de centenas de mangás, e dispõe até de um microondas e um chuveiro no qual ele pode tomar banho, de manhã, antes de começar mais um dia de trabalho temporário, em funções que variam de faxineiro a auxiliar de escritório. Yamashita dá ombros e sorri, quando perguntado por quanto tempo pretende continuar vivendo dessa maneira. "Espero que a situação no Japão melhore. A nova geração japonesa não tem dinheiro e muitos dos jovens não têm motivação. Não tenho dinheiro, mas tenho um sonho", disse, sentado em um cubículo equipado com um computador e no qual se via uma pilha de revistas em quadrinhos. E qual é o seu sonho? "Não sei. Talvez algum emprego comum de escritório", respondeu ele. Yamashita é um dos muitos "freeters" japoneses --uma palavra formada pelos vocábulos "free" e "Arbeiter", ou trabalhador, em alemão. Surgidos como resultado da crise econômica que varreu o Japão e sua filosofia de emprego vitalício, nos anos de 1990, os freeters flutuam entre trabalhos temporários.
Crise Agora a economia do país está se recuperando, mas muitos dos freeters não conseguem aproveitar a alta, depois de anos como trabalhadores sem capacitação específica. A maioria das empresas em expansão prefere recrutar formandos nas universidades, ou transferir os empregos básicos a países de baixos salários, como a China.
Cibercasa "Isso mostra como o sistema social está mudando. É um pouco triste para nós japoneses", disse Takahashi à Reuters. Ele acrescentou que já chegou a emprestar dinheiro por sentir pena de alguns de seus clientes. Nas noites de sexta-feira, em Shibuya, uma das principais zonas de entretenimento de Tóquio, os cibercafés ficam lotados. Às três horas da madrugada, pode-se ouvir o ronco sonoro de trabalhadores vestidos em ternos, os sapatos colocados cuidadosamente fora de cada cubículo individual, que é equipado com uma cadeira reclinável ou sofá, além de um computador e local para pendurar roupas. Também é possível ver moças com roupas da moda, usando sandálias de salto alto e saias curtas, que perderam o último trem para ir para casa à noite. Não existem dados oficiais sobre os desabrigados que recorrem aos cibercafés como refúgio. O Ministério de Bem-Estar do Japão planeja realizar um amplo levantamento sobre o fenômeno, segundo informações publicadas pela imprensa. Evidências recolhidas junto a esses estabelecimentos indicam que muitos dos usuários são freeters com idades entre 25 e 30 anos que usam os cibercafés como abrigo por alguns meses antes de conseguirem uma solução de moradia mais permanente. Os mais velhos, mais pobres e com menores chances de conseguir mudar suas condições de vida, e algumas vezes muito envergonhados de recorrer a parentes, se encontram no fundo do poço do universo dos cibercafés. Eles se amontoam em subúrbios de classe baixa de Tóquio como Kamata, alugando cubículos pouco ventilados, com atmosfera esfumaçada e com cadeiras reclináveis que custam 100 ienes a hora. "É muito desconfortável. Não dá para dormir realmente", disse um dos clientes de um dos cibercafés de Kamata, pedindo para não ser identificado. |
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