Divagações e muita falta do que fazer.
In: Québec
17 jun 2009Tem um lado da imigração que ninguém te prepara, não importa o quanto você leia ou converse com as pessoas, geralmente não se comenta sobre esse assunto que você tocou. A distância de casa.
Quando você pensa em morar fora, seja imigrar ou simplesmente morar fora em qualquer lugar, seja no exterior ou mesmo em outra cidade, você precisa se conhecer antes. Não vá somente na empolgação, pense e se prepare e seja bem ciente das coisas que podem te acontecer. Por exemplo, se você é muito chegado à sua família, a primeira coisa que você tem que ter consigo é que ELES NÃO VÃO ESTAR LÁ FORA COM VOCÊ.
Se pra você Internet, telefone e cartas são suficientes pra matar a saudade, você não vai ter problema algum em conviver longe de toda essa gente. Pode acreditar, esses serviços são muito mais baratos por aqui e extremamente acessíveis. Minha esposa, por exemplo, tem o hábito de falar com a mãe pelo menos uma vez por dia. É fácil, barato e sempre vai poder conversar com eles. Por outro lado. se você sempre foi daquele tipo de pessoa que, sua família e amigos é parte essencial do seu dia-a-dia, que não consegue se imaginar vendo o por do sol sem que algum deles esteja por perto, que sempre que vê qualquer coisa ao seu redor espera ter alguma dessas pessoas ao seu lado, você vai sofrer. Não importa onde você esteja, isso é um fato. Isso passa? Não sei te dizer porque este não é o meu caso, mas conheço pessoas que passam por isso.
E tem o outro lado também. Não é apenas você que vai sentir falta deles, eles vão sentir sua falta. Pelo que eu vejo e ouço, as criaturas que mais sofrem com essas mudanças são as mães. Elas choram, se derramam em lágrimas, sofrem como se estivessem sendo torturadas até a morte. E não pense que isso acaba quando você junta dinheiro pra visitar. Parece que tudo começa de novo, toda a choradeira, as chantagens e tudo o mais. Eu não julgo atitudes de ninguém, acho que é a maneira de cada um encarar as coisas.
Minha esposa compara a imigração com uma espécie de “morte em vida”. É uma situação curiosa que você se depara quando começa a se despedir das pessoas quando chega a hora de ir embora. Uma choradeira como se você fosse um defunto num caixão e ninguém nunca mais fosse te ver na vida.
Uma vez um monge me contou a história da maneira como o homem vive. Alguns crescem como o gambá, carregando os filhotes nas costas pra lá e pra ca, dando lhes de comer e protegendo-os onde quer que vão. Um dia os filhotes resolvem ir embora e a mamãe gambá vê o preço de ter carregado os filhotes pois perderam pêlo e peso, ficando extremamente fragilizadas.
Outras pessoas vivem como as árvores. A medida que as árvores crescem seus brotos acabam nascendo abaixo delas. Como o gambá, as árvores protegem os seus “filhotes” usando seus grandes galhos, mas diferente do gambá, as árvores não carregam os filhos “nas costas”. Nenhum dos dois está errado, é a maneira de ser de cada um, mas se fizer uma árvore criar os brotos nas costas ou um gambá ficar correndo atrás dos filhotes onde quer que eles vão, algo não vai dar muito certo…
Meu blog. Sou programador, músico, cozinheiro, escalador, surfista, pai, marido e nerd nas horas vagas. Trabalho com TI desde 1997 mas comecei em 1986 programando em DBase III. Gosto de quadrinhos e novas tecnologias, bem como curtir um dia na praia (mesmo que esteja abaixo de zero).
3 Responses to Coisas que não te preparam
Janaine
junho 20th, 2009 at 9:07 pm
Desse mal não sofro… Sofro do contrario, não gosto da proximidade com a família. Amo todos, mas odeio a intromissão de minha mãe ou minha da sogra.
Doida pra ir pra longe.
Mesmo assim, no começo, sei que sentirei uma faltinha do falatório.
Charley
março 21st, 2010 at 3:27 pm
Bem, no meu caso isso é o que mais pesa. Tipo, só agora estou começando a pesquisar sobre o assunto da imigração e vejo muitos pontos positivos. Mas, embora há algum tempo já esteja morando distante da minha família, não é nada comparado em me mudar para o Canadá, pois os vejo com um certa frequência. Se eu quiser, posso visitá-los umas 2 vezes por mês. Percebo que, para mim, a questão da família certamente é muito importante. Minha ligação com minha mãe, por exemplo, é muito forte. Então, caso algum dia decida realmente em ir para tão longe, terei de haver tabalhado muito bem esta questão.
Masaru Hoshi
março 25th, 2010 at 11:15 pm
Ce tá certíssimo, Charley. Mas vou te falar: tem coisas que não tem como se preparar e a gente só sente quando tá longe mesmo. Seja como for, te dou um conselho que escutei da minha própria mãe: faça o dia especial ser todos os dias; não espere por um dia só no ano.