Mais de um ano se passou desde que chegamos aqui e chegou a hora de fazer algumas reflexões a respeito desse tempo. A Márcia andou falando de suas impressões alguns dias depois de termos chegado aqui e esporadicamente eu colocava alguma coisa sobre o que acabávamos passando por aqui. Agora, sentamos juntos e fizemos um balanço desse tempo aqui.

Como acontece com muita gente que escreve um blog só pra mostrar o que vem passando durante a imigração, as atualizações tendem a ficar mais distantes umas das outras e pouca coisa nova é adicionada. É normal acontecer porque realmente a gente entra na rotina e o que era novidade pra gente acaba sendo quotidiano. Bom, pra evitar que essas coisas aconteçam e buscando tornar a pesquisa pra quem está interessado em morar aqui, vamos colocar informações mais comuns em um FAQ , um formato mais prático e de fácil atualização.

Aproveitei e coloquei os tópicos mais genéricos sobre imigração e sobre morar por aqui em um quadrinho na barra do site pra que fique mais fácil encontrar as informações. O blog não morreu, eu é que ando muito preguiçoso mesmo.

Em agosto voltei a escalar , desta vez com uma novidade: consegui convencer a Márcia a ir comigo. A última experiência dela com isso foi a 6 anos atrás, quando ela foi diretamente escalar na pedra. Acabou passando mal e, algumas semanas depois descobriu a causa da tontura: O Matsuru =)

Enfim, começamos a escalar na Délire Escalade, uma academia montada por um escalador, muito bem construída e mantida também. O interessante é a quantidade de gente que vai lá. Ao contrário da maioria dos lugares que a gente vê em Québec, a academia tá quase sempre cheia e a grande maioria que vai lá é mulher e por sinal escalam muito bem.

Enfim, desta vez resolvi levar um pouco mais a sério a escalada que da última vez. Primeiro porque já estou acima do peso e segundo porque quero melhorar minha performance como escalador pra valer. Parti pra literatura e, depois de pesquisar vários livros me decidi por dois: Training for Climbing e Conditioning for Climbers. Minha idéia é montar uma rotina de treino e seguí-la a risca. Vou usar o blog pra reportar os avanços ou tropeços que eu for tendo seguindo meu plano e usar isso como referência.

Primeiro Passo

O livro começa com uma parte histórica contando como foram as primeiras iniciativas de treinamento do esporte e os avanços que houve no decorrer dos anos. Um dos fatores que o autor se baseia é na questão genética. Segundo o livro e pesquisas coletadas pelo autor, a maior parte da população tem capacidade de fazer vias do nível 5.12, ou vias de 8o e até 9o graus conforme a escala brasileira.  Aberrações como Chris Sharma estão na extremidade direita do gráfico, capazes de fazer vias de 12 e até mais que isso, mas também pode haver casos de gente que sequer consegue subir na parede.

Muita gente pode escalar e ser feliz

Muita gente pode escalar e ser feliz

De qualquer forma, a parte interessante é que escalada não requer somente força muscular. Pelo contrário, 30% do esporte é força. Com isso, a idéia principal é a que, apesar de haver gente com potencial de fazer coisas fantásticas, esse potencial nunca vai poder ser atingido sem treinamento adequado. Isso é assim pra qualquer esporte. Se você não desenvolver de maneira certa, talvez sempre fique na média, apesar de fazer bem menos esforço que os outros.

Demanda de habilidades entre esportes

Demanda de habilidades entre esportes

É com base nesses três pontos e em práticas suplementares que se concentra o treinamento de escalada. Isso tudo e, claro, comer e dormir bem, duas coisas que eu estou precisando fazer urgentemente e parar de encher o bucho com qualquer coisa que aparece na minha frente. Como isso vai ser feito nesse livro eu vou descobrir daqui em diante.

UPDATE: A esposa está afastada de atividades físicas por ordens médica. Aguardamos liberação dela ainda em Novembro.

Começou a nevar

In: Québec

22 out 2009

Québec, 22 de Outubro de 2009. Ela chegou antes do que eu esperava e está aí, branca e gelada, acumulando nas ruas. Seja bem vindo, inverno.

Resolvi que chegara a hora de fazer carne de sol em casa. Já estava com vontade há algumas semanas. Parti do básico: Google. Depois de achar várias receitas e discutir um pouco com alguns amigos (dentro os quais vários cearenses) cheguei à seguinte fórmula:
  1. Compre uma carne boa, uma peça, nada de bifes que se compra em supermercado. UMA PEÇA DECENTE!
  2. Abra a carne em mantas (aprox. 3 a 4 cm de espessura).
  3. Abra em uma mesa espalhe o sal (de preferência sal grosso) uniformemente.
  4. Enrole a manta de carne e coloque em uma bacia, cubra e deixe por aprox.12 horas.
  5. Retire e deixe escorrer num varal à sombra ( apesar de ter o nome de “carne de sol”, não vai ao sol)
  6. Deixe “curar” por no mínimo 48 horas (de preferência no sereno) e pronto.

Encontrei também outro site com uma outra versão mais reduzida que deve dar certo também. Se alguém tentou ou faz parecido com esta ou qualquer outra receita, me fale. Vamos trocar figurinhas.

A carne comprada no mercado era assim...

A carne comprada no mercado era assim...

...e ficou assim

...e ficou assim

Infelizmente não tirei fotos dela pronta na farofa nem na feijoada, mas posso garantir que ficou muito bom. Esse pedaço deu pra temperar muita comida e rendeu por alguns meses. Por sinal, está na hora de preparar outra. Dessa vez eu tiro a foto dos pratos prontos com ela pra mostrar que realmente valeu a pena.

O Tempo Passa

In: Divagações

20 ago 2009

Depois que eu descobri o isofa consegui acentuar ainda mais meu nível de ócio.

Lembra dessas ?

Quando as pessoas pensam em sair do Brasil e ir para o exterior pensam logo em melhorar a vida, fugir de problemas como trânsito, poluição, violência, corrupção, etc. Várias pessoas com quem converso falam que também não se importariam em trabalhar ganhando menos desde que consigam viver melhor, ou ainda, que consigam viver. Eu acho isso algo bem pessoal, é de cada um e não tem uma definição pra certo ou errado.

Mas, tem duas coisas que você nunca vai escapar dessa vida: pagar impostos e morrer. No caso do último, dizem que ainda é um descanso, mas os impostos… Enfim, meu primeiro professor de francês me falava que o El Dorado não existe, você é quem tem que construí-lo. É a mais pura verdade. Por quê eu digo isso? Porque têm pessoas que vêm pro Canadá e reclamam dos impostos que têm que pagar, que são muito altos, et al. Essas pessoas esquecem da carga tributária que eram submetidos quando ainda moravam no Brasil e em como sofriam com a impossibilidade de comprar um produto por conta do alto valor referente a taxas de importação, impostos sobre produção, transporte, venda, que são acumulados por toda a cadeia produtiva. No Brasil raramente as pessoas sabem quais impostos estão pagando quando compram algo ou contratam um serviço e mesmo que isso viesse discriminado não é da natureza do brasileiro reclamar por algo que realmente valha a pena, tais como seu dinheiro ou sua saúde, mas experimente tirar a novela das 8 do ar pra ver o que acontece…

Um brasileiro inteligente mostrando como respeita as pessoas e a lei

Um brasileiro inteligente mostrando como respeita as pessoas e a lei

Impostos no Canadá

Aqui se paga impostos? Claro que sim! Até onde eu lembro, só em ditaduras você é isento de pagar impostos (você paga tudo com seu sangue e seu couro). Por aqui temos basicamente duas taxas:

  • GST: Goods and Services Tax, ou Taxa Sobre Bens e Serviços. Em Québec, ela é conhecida como TPS (Taxe sur les Produits et Services).
  • PST: Provincial Sales Tax, ou Taxa Provincial sobre Vendas. Em Québec ela é chamada de TVQ (Taxe de Vente du Québec, ou Taxa de Vendas do Québec).

Aqui existe a incidência de impostos únicos sobre bens e serviços. Como funciona ? Sempre que você vê o anúncio de um produto em uma loja ou de um determinado serviço, lembre-se que esse valor não é o final a ser pago. Em cima dele você tem que colocar o valor dos impostos, que varia de província pra província e, com exceção de quem vive em Alberta (como maneira de incentivar a ida para lá, o governo provincial não cobra a PST), todo mundo paga esses dois impostos pra tudo. Como sempre, impostos e finanças são assuntos longos e pode-se falar por muito tempo sobre isso. O Governo Canadense e os Governos das Províncias fornecem uma longa documentação sobre isso. Se você tiver interesse em se aprofundar no assunto, eu recomendo acessar e ler estes dois sites:

  • http://www.cra-arc.gc.ca/ : Canada Revenue Agency. Aqui você pode ler TUDO sobre a agência que regula a parte de finanças do país. É como se fosse a Receita Federal. Eu adoro o assunto e devo confessar que ainda não consegui ler e entender 1/3 do site inteiro.
  • http://www.taxtips.ca/ : Canadian Tax and Financial Information. Um site muito bacana que explica como controlar suas taxas, como programar sua aposentadoria e outros tipos de atitudes que envolvem o recolhimento de impostos.

Se você não quer ir muito a fundo no assunto mas quer saber quanto finalmente se paga nesses impostos,  no dia-a-dia, vale a pena dar uma olhada na calculadora aqui abaixo. Ela permite simular esses gastos pra diferentes províncias.

Lembrete: requer que você tenha Java instalado. (Se você tiver problemas para usá-la, veja mais instruções no site da calculadora).

Uma ótima calculadora usada para calcular os impostos pagos no Canadá

Uma ótima calculadora usada para calcular os impostos pagos no Canadá

Existe um artigo na Wikipedia bem completo falando sobre como funciona essa questão de taxação aqui no Canadá. Ele mostra de maneira bem genérica quanto é cobrado de impostos em cada província referente a bens e serviços.

Trabalho e Impostos

Bom, o GST e o PST são apenas os impostos do dia-a-dia, mas infelizmente não são os únicos. Quando você começa a trabalhar descobre que a brincadeira fica ainda mais divertida. Começa uma sopa de letrinhas que toda vez que aparecem no contra-cheque só fazem diminuir seu salário e você começa a chorar e xingar o governo sem parar…

Falando sério agora, existem algumas deduções recolhidas na folha de pagamento. De modo geral são quatro deduções:

  • Impostos Federais: Não tem como fugir deles. É como a mãe quando te manda tomar banho. Os descontos são baseados na sua renda. Este ano os impostos podem variar de 15% a 29% dependendo da sua renda anual.
  • CPP: Canadian Pension Plan, seu plano de aposentadoria Federal.
  • EI: Employment Insurance, o equivalente ao FGTS pago no Brasil. É o EI que garante o pagamento de uma assistência quando você fica desempregado ou quando seu filho nasce, você fica doente, etc.

Mas, não esqueça que aqui existem Governos provinciais também. Cada província tem a liberdade de cobrar impostos além dos federais. Nunca parei pra me informar sobre as cobranças no resto do país, mas em Québec existe basicamente a cobrança adicional destes dois:

  • Québec Income Tax: O imposto de renda provincial, recolhido sempre que você recebe qualquer tipo de pagamento que você receba enquanto residir no Québec.
  • QPP: Québec Pension Plan, o equivalente ao CPP da província. É recolhido compulsoriamente. 
  • QPIP: Québec Parental Insurance Plan. Começou a ser cobrado em janeiro de 2006, é cobrado adicionalmente ao QPP como forma de receita adicional quando você tem um filho. No Québec as mães tem licença maternidade de 12 meses. Dá pra enteder porque se paga este aqui.

A empresa tem o direito de cobrar outras taxas com base nos benefícios que lhe forem concedidos, tais como plano odontológico, plano de vantagens, transporte, et al., mas isso varia de empresa pra empresa. É importante descobrir isso no momento que você for contratado para não passar por uma surpresa quando chegar o seu pagamento.

A freqüência do recolhimento desses impostos também varia. Alguns são recolhidos uma vez por mês, outros a cada pagamento que lhe for feito (seja ele semanal, quinzenal, mensal, etc.), como são os caso dos impostos federais e provinciais.

Chega, japonês! Tu conseguites! Não vou mais ler esse negócio!

Chega, japonês! Não vou mais ler esse negócio!

Sua grande dúvida nessa hora deve ser “Como eu vou saber quanto vai me sobrar de dinheiro com esses impostos?”. Você não precisa entender de tudo isso pra poder calcular. Felizmente gente de bom coração deixou disponíveis calculadoras que nos ajudam nessa fantástica (e insana) tarefa. Mas, antes que você resolva clicar aí embaixo, vale o lembrete. Os formulários são bem extensos e requerem um certo tempo pra uso, bem diferente da calculadora de salários que eu utilizava quando trabalhava no Brasil e que me ajudava a negociar salário como consultor ou como funcionário. Por isso mesmo, dedique alguns minutos antes de sair brincando com isto.

  • Canadian Tax Calculator: Permite calcular quanto você deve ter de descontos anualmente. Serve para todas as província do país, com exceção de Québec. Para isso use a…
  • Québec Tax Calculator: Sim, no Québec tudo é diferente, até a cobrança e desconto dos impostos. Por isso, tem que ter uma calculadora específica para quando você presta serviços por aqui.

E quanto eu posso ganhar?

Eu acho que já escrevi um artigo sobre isso no passado, mas não consigo encontrar. De qualquer forma recentemente encontrei alguns sites interessantes sobre isso enquanto ajudava um amigo que está vindo para o Canadá. Os sites permitem ter uma idéia da média de salário pago a uma pessoa de uma determinada profissão

  • Canada Salary Calculator: O site é feito para pessoas que buscam o visto para morar aqui, mas eu nunca sequer li. Por outro lado, os resultados trazidos pela calculadora são razoáveis e é de fácil uso.
  • Payscale: O site é dedicado a agregar informações sobre salários e profissões por todo o mundo. Pelo menos as informações do Canadá na área de TI são bem próximas da realidade.
  • Salary Expert: O site é muito legal, permite pesquisar por médias salariais além da análise do custo de vida na região que você escolher. É todo cheio de links e propagandas, mas depois que você começa a ignorá-las dá pra usar bem. Só tem uma coisa que eu não gostei nele, a média de salário pro meu cargo está abaixo da média. Isso significa que vou ter que conversar com meu chefe em breve…

Pra terminar

Àqueles que acham que aqui se paga muito imposto, pense novamente em como era sua vida no Brasil, quanto tinha medo de sair a noite, como se sentia ao ver a condição das estações de metrô, dos pontos e dos terminais de ônibus, de como se sentia roubado quando via o valor da conta de luz, de água, de gás, dos financiamentos de carro, casa, os planos de saúde, etc.

Compare com o que você vê por aqui e tente achar onde está o dinheiro que você paga em impostos. Pesquise nos sites do governo, escreva para as agências. Acredite, elas respondem! E, se mesmo depois de tudo isso você estiver infeliz com os impostos que está pagando ou o que está vendo, você sempre pode voltar pro Brasil. Ninguém está te prendendo aqui.

Este verão está fantástico em Québec: só chove. Chove tanto que as lojas fazem promoção de coletes. Chove tanto que tem gente cancelando as férias durante as férias. Chove tanto que tem sapo pedindo abrigo. Chove tanto que tem cogumento nascendo nas calçadas. Chove tanto que até os passarinhos usam guarda-chuva. Chove tanto que estão pensando em mudar o esporte nacional pra pólo aquático. Chove tanto que tá parecendo Curitiba

Este post foi uma homenagem ao Thales falando sobre o calor na costa Oeste.

Japão – Parte I

In: Viagens

27 jul 2009

Meu vôo partia de Québec dia 11 de maio, num vôo da Jazz partindo as 9:30 da manhã em direção a Toronto. Consegui uma carona com um amigo até o aeroporto já que o carro ficaria com a minha esposa. Resolvi chegar cedo, mas como é Québec, segunda-feira pela manhã, o aeroporto estava entregue às moscas. Então, chegar as 8:30 era mais que suficiente.

Feito o check-in, fui barrado já na inspeção. A razão foi que eu resolvi ser mais esperto que os outros ursos. Sempre sofro com ar condicionado, principalmente nessas viagens compridas. Com medo de ser preso no aeroporto de Narita por causa do nariz escorrendo ou com acesso de espirros causados pelo ar, levei comigo um pote de Vicki, daqueles com creme, que sempre ajuda a passar minhas crises. Detalhe: o Vicki é creme, então É CLARO que parou no raio-x. E pra explicar pro indiano da inspeção que focinho de porco não é tomada ? Mesmo assim, a mula aqui resolveu ficar com o potinho. Isso ainda ia me causar mais problemas depois.

Já na sala de espera, peguei meu DSi e fui jogar um pouco. Tinha copiado vários eBooks e filmes pra ver no avião (inclusive StarTrek e Wolverine, que não tinha tido a oportunidade de ver no cinema), mas o bom mesmo foi poder usar o wi-fi do Lesage que é gratuito e poder mandar uns e-mails de última hora.

Como meu pai também iria para lá para a cerimônia do meu avô, havia combinado com ele de nos encontrarmos em Toronto, assim dava pra pegar o mesmo vôo. Na última hora ele deu prá trás e disse que resolvera ir pela Europa, pois tinha ouvido falar que vôos vindo da América do Norte estavam sofrendo muito mais com a inspeção das autoridades de saúde japonesas.  Eu esperava com essa pelo menos me livrar pelo menos do impacto da imigração, mas me dei mal. O destino queria que eu fosse sozinho mesmo.

Embarque pra Toronto, vôo correndo super bem, naqueles micro CRJ-705 da Canadaair com aqueles 65 lugares. Eu rezando pro vôo ir vazio pra poder esticar as pernas… não deu muito certo. Tava cheio mesmo. O jeito era jogar o que tivesse no DS e aproveitar os 90 minutos que tinha pela frente.

O teco-teco da Jazz e eu...

O teco-teco da Jazz e eu...

Já em Toronto, o negócio era esperar. Chegando pontualmente as 11h, eu ainda tinha 2h pela frente até o embarque. Era pouco, então o lance era pegar alguma coisa pra comer porque só ia ter lanchinho até o jantar. Comi um hamburger que espero nunca mais ter que provar. Se fosse no Brasil eu diria que tinha sido feito no Montesquieu, mas isso seria desrespeitar o Álvaro e o seu Zé. O troço era ruim mesmo. Era um pão ensopado no óleo, delícia pra entupir as artérias.

Embarque pontualmente as 13h30, todo mundo entrando, eu vou pro meu lugar e dou a “sorte” de sentar no lado esquerdo da aeronave, no banco do meio, entre dois outros passageiros. Do meu lado esquerdo um cara gordo, chinês, com bonezinho do Yankees. Do meu lado direito, um outro cara, brinco, baton, rímel, oriental, tailandês, viado, claro… Pra minha fantástica sorte. Mas pra minha grande felicidade tinha algo de bom na minha frente, BEM na minha frente: a telinha com a programação da AirCanada. Era aquilo que ia me fazer esquecer a falta de espaço para as minhas pernas e as 11 horas de viagem que me esperavam.

Eu te amo, meu 777 300!!!

Eu te amo, meu 777 300!!!

A programação prometia:

  • Pink Panther 2
  • O Curioso Caso de Benjamin Horton
  • O Dia que a Terra Parou
  • As Crônicas de Narnia : O Príncipe Caspian
  • Yes Man
  • Bride Wars
  • Bolt
  • Madagascar 2
  • Inkheart
  • Revolutionary Road

e mais uma outra seleção de filmes que eu não lembro. Isso sem contar que ainda tinha TrueBlood (que eu não tinha conseguido tempo de começar a assistir), 30 Rock (que eu acho muito massa também) e uma outra dúzia de programas do Discovery Channel. A viagem estava garantida. Além de tudo isso, ainda descobri que os petiscos do avião eram todos japoneses, do jantar, ao lanche e até o café da manhã. Melhor que isso só viajando de primeira classe, mas ainda não foi dessa vez.

Como meu objetivo era tentar me adaptar o mais rápido possível ao fuso japonês (13 horas pra frente) resolvi ficar acordado o máximo possível, assim chegaria pronto pra desmaiar de sono. E foi o que eu fiz. Assisti a todos os filmes possível, mesmo achando alguns extremamente chatos, mas consegui. Dormi cerca de umas 2 horas e fui dar uma volta no avião pra poder esticar as pernas. Fora isso, meu tempo foi dedicado a deixar minha bunda quadrada na frente daquele visorzinho. No geral não havia o que reclamar, foi uma viagem tranquila.

Era 15h do dia 13/05, eu havia perdido o dia 12 ao passar a linha de divisão do fuso. Era hora da inspeção sanitária. Dentro do vôo os comissários de bordo já distribuíam máscaras e formulários pra preencher para a alfândega. Minha dúvida era, assim que aterrizássemos viria aquela cena de filme de ataque biológico, com roupas de proteção e câmeras infravermelho ou só seríamos interrogados aleatoriamente ?

Era assim que os caras passavam na frente da gente.

Era assim que os caras passavam na frente da gente.

Enquanto o batalhão passava inspecionando um a um, observei um detalhe que me fazia ter certeza que eu já não estava no Kansas: a educação dos inspetores. Acho que nem se eu tivesse um escravo particular, tratado na corrente a pão e água, ele seria tão educado comigo. Os inspetores praticamente pediram perdão por me abordar enquanto me entregavam um outro papel informando quem eu deveria contactar caso apresentasse qualquer sinal como febre, dor de cabeça, dores na garganta ou no resto do corpo. Ah sim. E outro detalhe muito curioso. Apesar dos 15 anos sem falar japonês, notei que a tecla SAP funciona maravilhosamente bem. Consegui entender tudo que os fiscais falavam comigo e ainda consegui responder.

Finalmente depois de uma hora e meia de espera até que a equipe terminasse toda a investigação da aeronave, era hora de desembarcar e de se virar sozinho. Mas, um detalhe de última hora me impedia de passar mais rápido pela alfândega: o jantar tinha feito seu trajeto interno como esperado e queria sair. Eu só via um corredor gigantesco na minha frente uma esteira rolante que acompanhava a curvatura da terra.

E o pior é que isso está no site do aeroporto...

E o pior é que isso está no site do aeroporto...

Depois de percorrer os quilômetros da esteira, achei uma flecha conhecida que indicava o caminho do relaxamento, mas como tudo nessa viagem, levei outro susto quando abri a porta da casinha: o vaso não era como eu esperava. Era quase a cadeira de comando de uma espaçonave. Era o tal do Washlet (ou Uoshuretto, como eles chamam), desconhecidos pra mim quando estive 15 anos atrás lá mas hoje existentes em qualquer lugar onde a gente vai no Japão e até em alguns lugares nos Estados Unidos. Esse modelo tinha uns 6 botões do lado, além de ser almofadado, local para colocar as malas e pertences e mão além de ficar aquecido a uma temperatura agradável. Ou seja, era o paraíso. Depois de relaxar, porém, fui descobrir as funções dos botões. Tinha o jatinho de água, o desodorisador de ambientes e o massageador de nádegas… Algo… sei lá quem pensou nisso…

Mas eu tinha que levantar, senão já iam dar minha falta na imigração. Peguei minhas coisas e quando chego pra lavar as mãos outros susto: não tinha dispositivo de pegar sabão, só as torneiras. Olho pra lá, olho prá cá… nada. “Vai só na água mesmo, depois eu passo a mão nos desinfetantes que tem pelo caminho”, mas não foi preciso. Ao colocar a mão embaixo da torneira eis que ela solta um esguicho de sabão como se fosse um borrifador e logo em seguida veio a água. Troço bacana e cheiroso. Olho pro lado tem o secador de mãos na forma de uma pequena pia. Aliás, nada mais lógico. Já reparou como fica molhado o chão dos banheiros onde tem esse secador ? Pois é. Com esse tal de Jet Towel eles resolveram essa história, sem contar que vem vento de todos os lados pra secar a mão, não só de cima.

Me arrependo muito de não ter trazido um...

Me arrependo muito de não ter trazido um...

O secador de mãos japonês

O secador de mãos japonês

Terminado meu choque cultural pós-prandial, saí correndo pra alfândega. Olhei pro lado, a fila imensa e eu já triste, só de imaginar que ainda ia ter que pegar o trem pra chegar na casa do tio e ia ser uma longa viagem. Mas, eis que a alegria volta à minha vida quando li a placa destinada a japoneses e a fila com umas 10 pessoas andando rapidamente. Peguei meu passaporte japonês, passei pela oficial de imigração, confirmo meu endereço e telefone e vou pegar minhas malas. Jogo rápido e cerca de 15 minutos depois estou do lado de fora, procurando onde pegar o trem. Aliás, ir pro Japão e não andar de trem é como ir pro Hawaii e não ir pra praia. Considerado o mais completo e o mais COMPLEXO sistema de trens do mundo, é realmente fascinante andar de trem por lá, inclusive se refletindo no website da Japan Railways (JR), pronto pra pessoas que moram no Japão e pra gente que não manja nada da língua tambem. Por sinal, essa parte do complexo ainda ia me dar um show quando tivesse chegando em casa.

Demorou mais pra eu me localizar no aeroporto do que pagar a passagem e o trem. Apesar de haver diversas opções pra ir de trem de Narita até Tokyo (o aeroporto fica na cidade de Chiba, não em Tokyo), o Narita Express é com certeza a opção mais rápida, a “apenas” 60 minutos da capital, num preço acessível de 2,900 yens, mas tinha a linha “green”, uma espécie de carro executivo, com ar condicionado e banco reclinável que minhas costas me obrigaram a pegar, pagando praticamente o dobro desse valor, mas naquela altura… DANE-SE. Paguei e fui.

O mapa macro da linha férrea até o aeroporto

O mapa macro da linha férrea até o aeroporto

No caminho já dava pra reconhecer boa parte da paisagem, com aqueles prédios enormes pelo caminho, casas espremidas, fio elétricos, empresas, fábricas, plantações de arroz, estacionamentos, centros de entretenimento, tudo muito diferente, tudo muito… Japão. Várias vezes já pediram pra eu explicar como é diferente, mas eu simplesmente não consigo. É diferente. É como quando você tem amigos que são gêmeos e te perguntam como você sabe quem é quem. Você sabe que eles são diferentes e até consegue pensar em alguns detalhes, mas é muito subjetivo.

Mesmo querendo ficar acordado pra ver tudo, o corpo foi esmoecendo com o cansaçoe eu me rendi a um cochilo. 50 minutos depois, e bem a tempo, eu acordo próximo na estação de Shinagawa, onde eu teria que descer do Narita Express e pegar a linha local pra chegar em Ömori, onde morava meu tio. Era quase 6 horas da tarde e eu carregando minha mala no trem, desembarcando no caos da estação de Shinagawa, perdido, meio sem noção de pra onde eu deveria ir. Fui seguindo as flechas até achar um mapa com as estações. Eu achei o mapa, mas teria sido melhor se eu não tivesse visto. Uma coisa me veio à lembrança: era uma linha azul. Procurei e procurei até que finalmente achei perdido por ali 大森 (tente achar você também. Eu saí de 品川). Só não sabia se eu tinha que pagar outro ticket.

No Japão a passagem de trem funciona da seguinte forma. Você paga até o trecho node deseja ir. Tem um valor específico. Se você mudar de idéia no caminho e quiser trocar de linha, precisa saber se o valor que pagou é suficiente pra chegar até lá. Se não for, você precisa trocar seu ticket por outro de valor correspondente. Isso é importante porque, além do controle da entrada, as estações tem controle de saída. Se sua passagem não tiver valor suficiente pra sair, danou-se, meu velho. Vá trocá-la, senão não sai da estação.

Pra minha alegria o ticket do Narita Express tinha passagem livre até lá e outras localidades, era só o que eu precisava saber. Procurei a linha, peguei o trem e cheguei na estação. Falta um único detalhe: chegar na casa do tio. Já era 19h, eu estava moído e estava escuro. Optei pelo mais fácil e peguei um taxi. Passei o endereço pro motorista (o motorista é motorista, não é carregador, então ponha a mala sozinho no porta-mala) , e em 15 minutos estávamos na casa do tio, idêntica como a 15 anos atrás, com exceção de que já não estavam mais lá meus avós.

Parece chinês pra você? Parece turco pra mim!

Parece chinês pra você? Parece turco pra mim!

Desde bebê, e mesmo tendo mãe brasileira, minha educação sempre foi no sentido de ser japonês, algumas vezes se sobrepondo até a muitos valores brasileiros. O resultado disso culminou com a minha saída do Brasil para ir morar no Canadá pois, com exceção dos meus amigos, eu me sentia um estranho naquele país. E lá não. Eu realmente entendia como as coisas funcionavam, era onde estava tudo que eu tinha aprendido a ser, lá, eu estava em casa. Estando naquela casa, com aquelas pessoas, naquele lugar, tudo era diferente, tudo tinha um tom nostálgico. E mesmo com o cansaço e a fome, eu não queria dormir, só queria curtir cada momento. Mas isso foi só o começo. Ainda tinha muita coisa naquela semana que vinha pela frente.

Detalhes de última hora:

Justiça seja feita. O chinês que viajou comigo do meu lado (não o viado tailandês) se chamava John e morava nos Estados Unidos. Muito simpático, ele tem (claro) três restaurante há mais de 15 anos na região de Chicago. Nasceu em Taipei mas cresceu em Hiroshima, onde morou por certa de 10 anos antes de ir para os Estados Unidos e se casar. Por causa do tempo que morou no Japão ele fala japonês e se vira bem. Me deixou o telefone e o endereço dos restaurantes pra eu ir visitar, mas só Deus sabe onde eu meti esse papel.

O que me espera do outro lado do mundo ?

O que me espera do outro lado do mundo ?

Como prometido, e muito atrasado também, vou começar a reportar minha viagem ao Japão, feita em maio deste ano em virtude da cerimônia de um ano de falecimento do meu avô. Pra mim essa viagem foi uma verdadeira volta no tempo. Consegui resgatar inúmeros pontos que havia esquecido, aspirações e desejos, objetivos e mesmo a maneira como eu pensava sobre a vida e as coisas na época.

Prá começar, situando todo mundo. A última vez que pisei por lá era 1994, eu tinha 16 anos na época e tinha um visual totalmente diferente, adolescente, cabeludo, carregando o violão e com roupas surradas e rasgadas. De lá prá cá muita coisa mudou mesmo. Pra começar fiquei 10kg mais gordo, cortei o cabelo e não posso mais usar as roupas que eu usava sem que a polícia me páre na rua ou que eu não pareça um idiota.

Eu fui cheio de incertezas. A principal era o idioma. Apesar de ter estudado desde pequeno, fazia no mínimo o mesmo tempo que eu sequer conversava com alguém em japonês. Não sabia como ia reagir mesmo. Além disso, dessa vez eu estava decidido a ir de trem, do aeroporto até a casa do meu tio, sozinho. E pra completar, nunca mais eu havia conversado com ninguém da família, então não tinha a menor idéia de como seria.

Pra completar, a época era de um completo estardalhaço porque os pobres dos porquinhos estavam espirrando e ninguém carregava um lenço pra limpar o nariz deles. O Japão tinha detectado os primeiros casos da doença e tinha ainda todo o estardalhaço feito nos aeroportos pra identificação e detecção de pessoas com sintomas. Na véspera da minha viagem falava-se de esperar 3 horas dentro do avião para passar na inspeção da saúde. E pra completar a história, minha mulher e meu filho estavam de viagem marcada para o Brasil no dia seguinte que eu voltaria de lá. Enfim, tudo conspirava pra me deixar muito tranquilo em viajar.

A partir do próximo post vou contar como foi meu retorno às raízes e o que aconteceu por lá.

Que diabos é isto?

Meu blog. Sou programador, músico, cozinheiro, escalador, surfista, pai, marido e nerd nas horas vagas. Trabalho com TI desde 1997 mas comecei em 1986 programando em DBase III. Gosto de quadrinhos e novas tecnologias, bem como curtir um dia na praia (mesmo que esteja abaixo de zero).

  • Daniel: Olá, Obrigado pelos links. Acho que vai ser muito úteis. Estou pensando morar no Canadá. So [...]
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  • Masaru Hoshi: Oi Mariane, Muita gente daqui fala que é realmente complicado achar essas garderies, mas também n [...]
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